Um livro de crónicas literárias em que a anormalidade é tratada como espelho da Guiné-Bissau.
Lisboa acolheu, no passado dia 21 de junho, na Associação Caboverdeana, a cerimónia de lançamento do livro O Roubo Anormal, de Abdelaziz Veracruz, professor e escritor guineense que se afirma como uma das vozes mais vigorosas da nova geração literária do país.
O encontro iniciou-se de forma insólita e marcante, com a audição de um excerto de uma intervenção do Ministro do Interior da Guiné-Bissau, Botche Candé, em que este elencava os diversos tipos de roubos no país. O tom grave do testemunho, que apontava o absurdo de, após o combate ao roubo de gado, os homens passarem a “roubar as mulheres uns dos outros”, serviu de mote à reflexão lançada por Tcherno Amadú Baldé, amigo do autor e doutorando em Desenvolvimento e Cooperação Internacional. Tcherno sublinhou que a provocação implícita no título do livro convoca precisamente essa questão: afinal, que roubo se pode considerar “anormal”?
Seguiu-se a intervenção de Catarina Laranjeiro, investigadora e também amiga do autor, cuja apresentação emocionou a plateia. Catarina destacou a coragem do gesto de autoedição de A. Veracruz, num contexto de grandes dificuldades editoriais na Guiné-Bissau e na diáspora, qualificando-o como ato de resistência e de fé na palavra. Sublinhou ainda o valor político da escrita que, ao cruzar o português com o crioulo e outras línguas nacionais, afirma uma pluralidade cultural tantas vezes silenciada.
Visivelmente comovido pela presença de familiares e amigos, Abdelaziz Veracruz limitou-se a agradecer o apoio dos que sempre o acompanharam. Assumiu, porém, a consciência da lacuna que a sua obra procura preencher no universo literário guineense: oferecer textos breves, acessíveis e de grande utilidade pedagógica num país em que o ensino da língua portuguesa se impõe como primeira língua, mesmo quando não é materna, nem língua de uso quotidiano para a maioria dos estudantes.
O Roubo Anormal reúne trinta e quatro textos, divididos entres contos e crónicas, que se movem entre a ironia e a denúncia, dando corpo a um retrato vivo do quotidiano guineense, entre o humor e a memória, ao estilo dos djidius, guardiões da oralidade africana. Com prefácio de Sumaila Jaló e capa de Nú Barreto, a obra surge como um exercício literário de resistência, de denúncia e de libertação.
A cerimónia encerrou com uma calorosa sessão de autógrafos e um momento de confraternização, celebrando não apenas o nascimento de um livro, mas também a afirmação da literatura guineense no mundo.
Abdelaziz dos Reis Vera Cruz é professor, cronista e escritor que tem vindo a afirmar-se como uma das vozes mais singulares da literatura guineense contemporânea. Mestre em Ensino de Português como Língua Segunda pela Universidade do Porto e licenciado pela Escola Normal Superior “Tchico Té”, conciliou sempre a docência com a escrita, publicando em 2015 o livro de contos M’bim, o Feiticeiro, em 2016 o conto infantil Numpuni Especial e, em 2020, o romance Não Havia Trânsito, pela Nimba Edições. Reconhecido pela sua capacidade de “pintar com letras” a realidade social da Guiné-Bissau, Veracruz cultiva uma escrita onde o lirismo e a crítica se entrelaçam, evocando a tradição oral e inscrevendo-se na corrente de uma literatura que é, simultaneamente, gesto artístico e manifesto de resistência.


