Amadú Dafé lança, em Lisboa, Ainda Te Manifesto

Um conjunto de cartas literárias sobre a política, o amor e a esperança.

O Anfiteatro 8 da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa encheu-se, no passado sábado, para acolher o lançamento do mais recente livro de Amadú Dafé, Ainda Te Manifesto, publicado pela LON Edições, 2025.

O encontro, organizado pela Casa da Cultura da Guiné-Bissau e pelo NEA-FDL, constituiu, além do ato literário, um gesto de afirmação cívica e de comunhão cultural. A sessão abriu com a intervenção singular do autor, que, durante quinze minutos, recitou de cor o extenso poema da sua autoria, “A que sabe a Guiné-Bissau”. Nele, a pátria surge como sabor e memória: das mangas verdes com sal às danças tradicionais, das línguas nacionais que se entrelaçam ao rumor das bolanhas, do vinho de palma às histórias de resistência, da infância às marcas da ditadura. Um poema onde a Guiné-Bissau é corpo e espírito, alimento e utopia, denúncia e pertença. 

A dimensão musical do encontro foi assegurada por Braima Galissá, cujas animações de corá entrelaçaram-se com as vozes das convidadas. Rita Ié partilhou, com emoção, a sua amizade com o autor, lembrando que no livro é citada como “conspiradora ocasional das coisas da alma”. Já Karyna Gomes destacou a coragem e a persistência de Amadú Dafé, sublinhando não apenas a sua qualidade e capacidade literária, mas também o seu inconformismo, a sua resistência política, cívica e académica que a obra corporiza. Por sua vez, Carla Adão optou por um registo epistolar, oferecendo ao escritor uma carta imaginária escrita pela própria Guiné-Bissau em resposta às missivas hologramáticas que o autor dirige tanto à figura simbólica de Mimá como ao seu país. 

Com a sala repleta, o público mostrou grande interesse, intervindo com perguntas e comentários que prolongaram o diálogo até à sessão de autógrafos.

Escrito na forma de cartas literárias, Ainda Te Manifesto desdobra-se entre o ensaio filosófico e a confissão íntima. Mimá, destinatária central, surge como figura simbólica que encarna simultaneamente a Guiné-Bissau e a resistência de um povo ao silêncio e à banalização da esperança. Trata-se da sétima publicação em prosa de Amadú Dafé, cuja trajetória literária se iniciou em 2017.

Natural de Ingoré e atualmente a residir em Portugal, Amadú Dafé é apresentador do programa Mar de Letras da RTP África, cofundador da Casa da Cultura da Guiné-Bissau, membro da Associação de Escritores da Guiné-Bissau e do Centro PEN Guiné-Bissau. Distinguido com diversos prémios literários, publicou títulos como Magarias (2017), Ussu de Bissau (2019), Jasmim (2020), A Cidade que Tudo Devorou (2022) e A Selva Mágica das Sarnadas de Ródão (2023).

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